Com prazo até dezembro, a Enova decide se compra 17,8 mil hectares em Caraúbas e Congo, ao lado dos 12 mil hectares da Liberty em Coxixola. Juntas, as áreas das mineradoras australianas representam mais que o território da capital João Pessoa
Uma mineradora australiana pode se tornar vizinha de outra empresa do mesmo país na busca por terras raras e titânio no Cariri paraibano. A Enova Mining tem opção de compra de 17.796 hectares em Caraúbas e Congo e até 1º de dezembro de 2026 para decidir se fecha o negócio, enquanto a Liberty Metals, que exerceu sua opção em dezembro de 2025, já é dona de cerca de 12 mil hectares logo ao norte, em Caraúbas e Coxixola. Juntas, as duas áreas somariam quase 30 mil hectares, quase uma vez e meia o território de João Pessoa. Uma terceira australiana, a Perpetual Resources, começou a pesquisar tungstênio em outra região da Paraíba, o Seridó.
Nenhuma das empresas sabe ainda quanto minério existe no subsolo. A Enova e a Liberty Metals têm ações na Bolsa de Valores da Austrália (ASX) e pediram suas áreas à Agência Nacional de Mineração (ANM) pela mesma série de processos, aberta em 2025. A área da Enova reúne nove autorizações de pesquisa, de 846108/2025 a 846116/2025, em nome da Mineração Paranaí Ltda, e a da Liberty tem seis áreas, entre elas as de número 846.074/2025 e 846.084/2025. O mapa que a Enova enviou à bolsa em 16 de setembro marca a área da Liberty colada ao norte da sua.
A Liberty anunciou a opção de compra do projeto paraibano em 16 de outubro de 2025, recebeu o aval dos acionistas em 25 de novembro e exerceu a opção em dezembro. Pelos três projetos brasileiros, na Paraíba, no Rio Grande do Sul e na Bahia, pagou cerca de 2,1 bilhões de ações e 518 milhões de opções, lançados no balanço por 5,86 milhões de dólares australianos, e os vendedores, que não são nomeados, ficaram com royalty de 1,5% da futura produção. A Enova assinou a sua opção em 16 de setembro de 2026 e ainda está na fase de avaliação. Os comunicados das duas avisam que não há recurso mineral definido, a estimativa oficial de quanto minério existe numa área.
O prazo original da Enova para decidir era 13 de outubro. Em 14 de outubro, a empresa e a Paranaí estenderam a análise até 1º de dezembro, de acordo com o Kalkine e a Brasil Mineral, e o projeto passou a ser chamado de Projeto Monazita e Titânio de Caraúbas.
A Enova e a Liberty Metals não divulgaram investimento, número de empregos nem prazo para uma eventual mina no Cariri. Caraúbas tinha 3.944 habitantes e Congo, 4.933, no Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelas contas da Enova, Caraúbas fica a 280 quilômetros do Porto de Cabedelo e a 258 quilômetros do Porto do Recife.
Alvarás da ANM citam só minerais de titânio
As fichas do Cadastro Mineiro da ANM de quatro desses processos, dois de cada empresa, autorizam a pesquisa de apenas duas substâncias: ilmenita e rutilo, minerais de onde se extrai o titânio. A monazita, mineral de terras raras que dá nome aos dois projetos, não aparece entre as substâncias registradas.
Os dois processos da Enova consultados seguem em nome da Mineração Paranaí, ficam em Caraúbas e Congo e têm alvarás de pesquisa publicados em setembro e novembro de 2025. Cada alvará vale por três anos, até 2028, prazo em que a titular precisa fazer a pesquisa e entregar o relatório final à agência.
Na área da Liberty, os dois processos consultados continuam em nome da RTB Geologia e Mineração Ltda, que os pediu em maio de 2025. Um fica em Coxixola e o outro em Caraúbas, com alvarás publicados em junho e agosto de 2025. A Liberty não divulga quem vendeu as áreas, e a ficha da ANM não registra transferência para a empresa australiana.
Amostra da Liberty tem metais usados em ímãs
Os teores de terras raras divulgados até agora saíram de uma única pedra recolhida na superfície da área da Liberty. A análise do laboratório Alex Stewart International, divulgada em janeiro de 2026, encontrou 12,99% de óxido de cério, 5,98% de óxido de lantânio e 4,69% de óxido de neodímio na amostra.
O neodímio e o praseodímio são os metais usados nos ímãs de motores elétricos, e somam cerca de 20% dos óxidos de terras raras da amostra, segundo a Liberty. A mesma pedra trouxe tório e urânio, elementos radioativos que costumam acompanhar a monazita e exigem controle no processamento, de acordo com o relatório da empresa de abril.
A própria Liberty avisa que uma amostra recolhida num ponto escolhido não representa a média do depósito. Antes, em outubro de 2025, amostras de cristais de rutilo da mesma área deram até 94,7% de óxido de titânio, o que levou a empresa a chamar a área de Projeto Paraíba de Rutilo e Monazita.
Areia dos rios pode concentrar monazita e titânio
O alvo principal da Enova é a monazita, mineral que contém elementos de terras raras. Os concentrados de monazita são vendidos como matéria-prima para processos químicos que separam esses elementos, e a demanda por eles é alta, na avaliação da Enova.
A empresa também procura ilmenita e rutilo, minerais de onde se extrai o titânio, e zircão, usado nas indústrias de cerâmica e de materiais resistentes ao calor. Esses minerais pesados se desprendem das rochas com a chuva e a erosão e se acumulam nas areias dos rios. Pela análise preliminar da Enova, eles podem ser separados por gravidade e depois divididos por separadores magnéticos ou eletrostáticos, comuns na indústria.
As duas empresas usam a mesma comparação geológica. A Província Borborema, faixa de rochas antigas que ocupa boa parte do interior do Nordeste, já foi ligada à África Central antes da separação dos continentes, e a Liberty cita Camarões, onde mineradoras australianas acharam rutilo de alta pureza em rochas parecidas.
Compra da Enova sai em ações e depende dos acionistas
A Enova paga a área com papéis da própria empresa. Se exercer a opção, entrega à Mineração Paranaí 300 milhões de ações e 150 milhões de opções que permitem comprar novas ações a 0,0025 dólar australiano cada em até quatro anos. A vendedora ainda recebe royalty de 5% sobre a receita líquida de toda a produção mineral da área.
Há também uma cláusula para o caso de a mina demorar a sair. Se a produção comercial não começar até dois anos depois de a ANM aprovar o relatório final de pesquisa de qualquer uma das áreas, a Enova paga 50 mil dólares australianos por ano à Paranaí até a primeira produção.
A emissão das ações precisa da aprovação dos acionistas da Enova em assembleia, em até três meses depois do aviso de compra. Para bancar a avaliação de Caraúbas e outros projetos, a empresa captou 1,5 milhão de dólares australianos com investidores e prevê levantar até 495,2 mil dólares australianos com uma oferta aos atuais acionistas.
Nenhuma das mineradoras perfurou a área ainda
A equipe de geologia da Enova foi enviada à área em setembro para os primeiros trabalhos de campo, que incluem a conferência dos dados históricos, a situação das autorizações na ANM e análises técnicas, jurídicas, ambientais e comerciais. “O projeto representa uma oportunidade de garantir uma extensa área numa região altamente promissora para mineralização de terras raras”, afirmou o diretor-executivo da empresa, Eric Vesel, no comunicado de setembro.
A Liberty contratou em abril um levantamento aéreo para mapear a radiação do tório, pista da monazita, e planejou uma sondagem rasa a trado, de 5 a 15 metros de profundidade. No relatório de 30 de julho, a empresa informou que continua avaliando e planejando a pesquisa, sem relatar perfuração.
O foco da Liberty, porém, mudou. No relatório anual de 21 de setembro, a empresa diz que sua atividade principal passou a ser a busca de ouro na Guiana, onde garantiu em agosto 90% de dois projetos. Em 14 de outubro, os acionistas aprovaram a troca do nome da empresa para El Dorado Goldfields. Os projetos brasileiros “continuam conosco e sob avaliação ativa”, escreveu a empresa, que gastou 260 mil dólares australianos com eles até 30 de junho.
O Nordeste já tem indústria que usa titânio. Em Camaçari (BA), a Tronox opera a única fábrica integrada de dióxido de titânio da América do Sul, segundo a empresa, onde o mineral vira pigmento branco. A Enova já pesquisa terras raras e lítio em Minas Gerais, nos projetos de Coda, Poços de Caldas e no Vale do Lítio.
Seridó atrai uma terceira australiana, atrás de tungstênio
No Seridó, mais ao norte, a terceira australiana procura um metal diferente. A Perpetual Resources tem cinco alvarás de pesquisa de minério de tungstênio que somam cerca de 8,7 mil hectares em São Mamede e Várzea, perto da divisa com o Rio Grande do Norte. O tungstênio é usado em ligas de alto desempenho, na indústria de defesa e em eletrônicos.
A empresa anunciou a área em 1º de abril de 2026. A região faz parte da Província Mineral do Seridó. Os cinco processos, de 846.041/2026 a 846.045/2026, foram pedidos à ANM em fevereiro pela filial brasileira da Perpetual, tiveram os alvarás publicados em 2 de junho, válidos por três anos, e o início da pesquisa foi comunicado à agência em 1º de agosto.
Em 27 de julho de 2026, a Perpetual divulgou os primeiros resultados. Das 18 amostras de rocha recolhidas em três alvos, seis passaram de 0,5% de óxido de tungstênio, e a mais rica chegou a 1,53%. A própria empresa avisa que as pedras foram escolhidas pela aparência e não indicam o teor médio nem o tamanho do depósito. A área tem galerias antigas e escavações de garimpo de scheelita, o minério de onde se tira o tungstênio, e fica a 6 quilômetros da antiga mina de Quixaba e a 22 quilômetros da mina de Ilha Grande.
Uma segunda campanha de campo estava prevista para agosto de 2026, com mapeamento e novas amostras para escolher onde perfurar. “Os resultados validam nossa seleção inicial de alvos geológicos e dão uma base sólida para o programa planejado para agosto”, afirmou o presidente da empresa, Julian Babarczy.
A Perpetual também fechou acordo para comprar um projeto de tungstênio em Nevada, nos Estados Unidos, e pesquisa lítio em cerca de 12 mil hectares em Minas Gerais. A empresa diz que as áreas ficam perto do complexo eólico Serra do Seridó, em Passagem, com estradas e linhas de transmissão já instaladas, mas não divulgou investimento nem prazo para perfurar na Paraíba.
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