Cabaceiras sempre me atraiu. Não só pelas belezas singulares dos seus lajedos, ou pelo destino cinematográfico e turístico internacional que se transformou. Mas, para entender essa virada da chave que girou e fez o pequeno município do Cariri falar como gente grande quando o assunto é desenvolvimento.
Fiz uma rápida, porém dedicada imersão na terra do meu amigo e confrade Bruno Lira, um projeto adiado pelos compromissos profissionais e obrigações pessoais. Dessa vez, juntei a fome das férias escolares dos meus dois pequenos com a vontade de saborear a cidade e essa curiosidade antiga.
Foi paixão à primeira visita. Na charmosa Cabaceiras me emocionei já na chegada. Um programa de rádio, atrevidamente gerado do largo da famosa Igreja de Nossa Senhora do Rosário, celebrizada pelas gravações do Auto da Compadecida. No filme da vida real, me senti um Chicó, saindo dos imprensados das limitações técnicas e feito João Grilo vencendo as agonias das oscilação de internet pela conexão de sorrisos e amor.
Como na saga de nosso insuperável Ariano Suassuna, o atrevimento deu certo. Depois da prosa do prefeito Ricardo Aires sobre superação da cidade, a poesia de Juliana Soares e o som das vozes plangentes e sanfonadas de Jota Show e Guilherme Lira, o programa Hora H, da Rádio POP e Rede Mais, acabou sob a surpresa de espontâneos aplausos de simpática e orgulhosa plateia. Não eram para mim, óbvio. Era Cabaceiras s aplaudindo Cabaceiras. E fui eu quem bati as mais estridentes palmas.
Cabaceiras é um encanto. É o roteiro de um povo que pegou as adversidades na unha e fez o pião rodar até virar oportunidade. Um centro histórico coloridamente preservado, uma rua do cinema com um catálogo de produções rodadas, desde 1920 pra cá, a profissionalização do turismo nos místicos lajedos, a valorização do rei bode – um ouro em forma de carne, leite e couro.
Por toda a parte tem arte: dos figurantes e atores dos filmes e dos escritores do cotidiano, empreendedores, pequenos, médios e grandes. Nada seria possível sem o papel decisivo dos diretores públicos. Tiago Castro, jovem prefeito por duas vezes, colaborou muito no roteiro com final feliz de uma ‘cidade empreendedora’. Pegando pela mão dos seus conterrâneos. Incentivando, capacitando e abrindo as cortinas para o palco do protagonismo.
Uma grande revolução. Por iniciativas individuais, como a de Thamires, que, sem perspectiva de emprego, foi estimulada a fazer pizza em casa. Depois, contra todos os conselhos, encorada a montar sua própria pizzaria, a Borda de Ouro, um sucesso hoje na cidade e região. Ou a do casal Késsia e Sílvio, da Pousada Roliúde, cuidada nos mínimos detalhes, com direito a cinema e tudo.
Ou por organizações coletivas, como a CapriBov, que produz iogurte, doce de leite e queijos premiados, tudo vertido das milagrosas tetas da cabra. Deu gosto ver o orgulho humilde de Emerson contando a história da cooperativa e mais ainda de ouvir o depoimento de Julianalda, expositora dos premiados produtos da Cooperativa. Mulher, sensível, marejou os olhos ao lembrar que tudo começa lá na roça, com pequenos criadores, apostando tudo da vida nos seus animais, cuidados como joias preciosas.
No curtume comunitário, ouvi a história de vida do senhor José Carlos Castro, o oráculo do Distrito da Ribeira. A partir da arte do corpo aprendida com os antepassados e o choque da tragédia pessoal que abreviou a vida do seu jovem pai, a decisão do arrimo de família de juntar uma comunidade desesperançada a mudar a história. O couro salvando na cura, transformado nas oficinas artesanais e vendido como artigo de luxo na prateleira da Associação Arteza.
Em menos de três dias a expedição me causou profundo impacto e uma descoberta: o município tem sim muitas potencialidades, antes adormecidas e depois despertadas. Mas, o principal ativo de Cabaceiras é o seu povo. Poucas vezes vi alguém falar com tanto orgulho de sua terra. Do competente e disponível secretário de Turismo e Cultura, Toninho Menezes, ao seu Manoel, figurante do Auto da Compadecida, que até hoje se veste de cangaceiro para recepcionar turistas e reproduzir cenas do filme.
Cabaceiras é mesmo um encanto de lugar e uma inspiração de cidadania. A terra do menor índice de chuvas do Brasil fez chover e inundar aos seus de oportunidades. Deixei aquele sagrado solo caririzeiro com o coração batendo forte. Antes era curiosidade de longe, agora é admiração de pertinho. Foi amor à primeira visita. Não sei explicar direito. Só sei que foi assim na cidade que tirou leite – história, renda, emprego e orgulho – de suas pedras. Um sol de esperança!

Com MaisPB





