Uma cabine icônica. Que fez história. E teve a sua relevância em determinada época para aproximar as pessoas. Uma das raras formas de comunicação numa época em que o celular não existia. E que a linha do telefone convencional era cara. Objeto de luxo para poucos privilegiados.
Prestes a desaparecer de vez do Brasil por determinação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), os orelhões, um ícone das ruas brasileiras e que por décadas fez parte da paisagem urbana, vão deixar saudades. O fim de uma era representa um certo nostalgismo para quem usou por muito tempo esse velho aparelho que hoje está obsoleto e abandonado nas praças, esquinas e ruas do país, devido ao advento do celular, dos smartphones e da modernidade.

A relação dos orelhões entre locutores e ouvintes sempre foi recíproca. Indispensável. Necessária. O PB Agora conversou com alguns desses profissionais e seus ouvintes, que por anos, usaram o orelhão para estabelecer uma comunicação. As ligações eram para pedir música, mandar recados românticos e até fazer declarações de amor. No começo quem comandava os orelhões na Paraíba era a Telpa e depois passou para a Telemar, e posteriormente, para a OI.
O comunicador Kennedy Sales, sabe bem o valor que o orelhão ocupou em determinada época. O jornalista comandou durante anos um programa de rádio em uma emissora de Campina Grande, e teve a audiência testada graças ao orelhão. Isso porque, os ouvintes recorriam à icônica cabine para ligar para a emissora e pedir música. Muitos dos ouvintes, conforme lembrou Kekedy Sales, se arriscaram nas noites e madrugadas à procura do orelhão mais próximo para fazer a ligação. E ligavam todas as noites. Insistentemente. Gastando todas as fichas disponíveis.
“Eu como locutor de rádio, principalmente ali na década de 80, nós tínhamos um programa em vários horários, mas assim, o que mais me ligava com o ouvinte do rádio era o telefone. Porque não tínhamos internet, muito menos torpedos ou mensagens através do WhatsApp, enfim, não existia essa ligação direta. Então a única forma era o telefone. E o telefone, ainda assim, naquela época era muito raro na maioria das residências. Algumas pessoas privilegiadas tinham telefone, a maioria não tinha. Então qual era a forma do ouvinte entrar em contato com a rádio, era o orelhão, não tinha outra opção “, recordou.
Como comunicador das noites e das madrugadas, Kekedy Sales destacou que o orelhão exerceu esse papel importante na vida de muitos brasileiros, especialmente, os ouvintes de rádio.
O que mais chamava a atenção do locutor é que mesmo sendo um programa que acontecia à noite, muitas pessoas saíam de casa de noite para ir para o orelhão mais próximo para poder entrar em contato com o programa e falar com o locutor.. Tudo para enviar recados de amor. E pedir música. Era a época da ficha telefônica e depois a do cartão
“Então era um certo sacrifício sair de casa de noite, porque dependendo do local era perigoso mas as pessoas não abriam mão de ir lá no orelhão e ligar para o programa” observou.
Embora hoje esteja abandonado, solitário, e quase invisível, naquele tempo o orelhão encurtava a distância e dava voz para as pessoas mais humildes. Diferente de hoje, nos tempos modernos, onde a facilidade do telefone é infinitamente maior.
Um desses personagens que durante muito tempo fez uso dessa icônica cabine, foi o árbitro de futebol Genilson Mota, morador de Vila Cabral de Santa Terezinha, em Campina Grande. Era final da década de 90. O aparelho celular ainda não havia se popularizado. Os velhos orelhões eram uma das raras formas de comunicação. Com uso da ficha telefônica, era possível fazer ligações e conversar com amigos e familiares à distância.
Ele recorda que no auge da juventude, ligava com frequência para emissoras de rádio da cidade, para pedir música,e principalmente para fazer declaração de amor para a sua namorada. Para isso, recorria a velha “ficha” telefônica. Gastou muita ficha telefônica. Em média, Genilson usava três fichas para dar tempo de completar toda ligação. E fazer o seu poema de amor no ar.
Com o advento do cartão, as fichas telefônicas desapareceram e a ligação via cartão ficou mais eficiente. E duradoura.
“Saber que esses orelhões vão desaparecer dá uma certa nostalgia. Ele fez parte da vida de muita gente. Foi muito importante em uma época “, recordou.

Genilson classificou o orelhão como um símbolo urbano que perdurou por décadas. Ele fez uso desse aparelho por anos para falar com amigos e parentes. Ele recorda que ter um telefone em casa, com uma linha privada, era privilégio de poucos. Era muito caro. Poucas famílias podiam comprar o chamado telefone fixo, geralmente instalado na sala da cada. A solução, era recorrer ao orelhão. Genilson comprava grande quantidade de fichas para ligar para o tio que morava no Rio de Janeiro, e outros parentes.
Mota também usava o orelhão para ligar para os programas de rádio, para reivindicar problemas da comunidade, e principalmente para pedir música nos programas românticos.
“Eu fiz uso do velho orelhão por décadas, quando a gente nem sonhava com o aparelho celular. Ô tempo bom que marcou época. Vai deixar saudade “, recordou.
Genilson costumava ligar para o programa “Planeta Love” apresentado pelo comunicador campinense Edil France. Durante muito tempo, o programa fez sucesso nas noites da Rainha da Borborema. Os ouvintes recorriam sempre ao orelhão para mandarem os seus recados de amor.
Edil conversou com o PB Agora, e lembrou daquele tempo e da importância do orelhão para estabelecer uma comunicação entre o locutor e o ouvinte. Edil lembrou que Genilson Mota era um dos ouvintes mais fieis. Ligava todas as noites. Sempre com uma mensagem de amor.
“O orelhão fez parte de minha vida como locutor e de muitos ouvintes. Era a única forma de comunicação existente na época. Alguns ouvintes ligavam todas as noites para mandar os recados. Foi um tempo bonito, romântico e marcante” contou o comunicador que ainda hoje apresenta um programa em uma emissora de rádio da cidade.
Até hoje, Edil France lembra de alguns dos ouvintes que ligavam para o seu programa usando o orelhão. Alguns segundo ele, chegaram a ligar “a cobrar” e a ligação era interrompida. Isso porque, a rádio não permitia aceitar ligação a cobrar.
“Tinha ouvintes que quando não tinha ficha ligava a cobrar. Eu não podia atender. A rádio não permitia”, lembrou.
Edil recordou que quando eu começou a trabalhar em rádio na cidade de Patos, nos anos 80, recebia em torno de 40 ligações dos ouvintes, todas as noites no programa Trilha do Sucesso. Os ouvintes pedindo música.
A avalanche de ligações também se repetiu nas emissoras de rádio que ele trabalhou em João Pessoa e Campina Grande. Muitos ouvintes interrompiam a ligação quando a ficha se acabava.
“A participação dos ouvintes em João Pessoa e Campina Grande era impressionante. As pessoas ligavam dos bairros de Campina Grande e diziam que estavam no orelhão, falando rápido antes da ligação acabar” lembrou.
“Então, o orelhão foi muito importante, não tem dúvida principalmente nos bairros. Naquele tempo não existia o celular e o orelhão foi muito importante na audiência do nosso programa. O telefone naquele tempo era muito caro. Nós tivemos aqui rádio clube, depois da ficha telefônica, veio o cartãozinho. O orelhão e não tem dúvida que vai deixar saudades, principalmente para a turma da nossa época, que não tinha celular, hoje o mundo já evoluiu” recordou o radialista Edil Frances.
Na Paraíba, 147 orelhões ainda estão ativos em 75 municípios. Somente em Campina Grande, são cinco aparelhos em funcionamento. Já em Cajazeiras, no Sertão do Estado, existem 9 orelhões, e 7 em Pombal.
Famosos telefones públicos que chegaram a ser um símbolo nacional, essas caixas grandes começaram a ser retiradas definitivamente das ruas de todo o Brasil em janeiro. A extinção dos aparelhos não será feita de forma imediata em todos os locais. Em janeiro começou, de forma massiva, a remoção das carcaças e aparelhos desativados. Os orelhões só devem ser mantidos em cidades onde não há rede de celular disponível, e não vão passar de 2028.
A retirada começa agora porque, no ano passado, acabaram as concessões do serviço de telefonia fixa das cinco empresas responsáveis pelos aparelhos.
A estimativa é que cerca de 30 mil orelhões sejam removidos ao longo deste ano, principalmente em áreas centrais, corredores comerciais e avenidas de grande circulação.
PB Agora





